26 Noviembre 2007
Bastou um mês para enterrar o projecto Millennium BPI, aquele que seria o terceiro maior banco da Península Ibérica.
Ontem, ao início da noite, os dois bancos deram por terminadas as negociações sobre uma eventual fusão e, a partir de agora, cada um prosseguirá com a sua própria estratégia de crescimento, avança o «Diário Económico».
Segundo um comunicado emitido ao início da noite, BCP e BPI informaram «que se concluíram sem sucesso as negociações iniciadas no dia 6 de Novembro de 2007 com vista a uma eventual operação tendente à fusão entre os dois bancos». Contactados pelos Diário Económico, quer o BCP, quer o BPI recusaram prestar mais esclarecimentos, bem como explicar os motivos do fracasso do processo negocial.
No entanto, segundo as fontes contactadas pelo «Diário Económico», as duas instituições não conseguiram chegar a um acordo global, tendo divergido em aspectos essenciais, nomeadamente, sobre o rácio de troca, um factor determinante para estabelecer a relação de forças entre os accionistas do BCP e do BPI no capital social do Millennium BPI. «O BPI conseguiu convencer os seus accionistas a aceitar Filipe Pinhal para CEO, mas não cedeu nos termos de troca e, perante um rácio de dois, o BCP disse não», explicou uma fonte. Este responsável adiantou que o banco liderado por Fernando Ulrich se manteve intransigente na sua proposta inicial, de uma acção BPI por cada duas BCP. Tal como o jornal noticiou na sexta-feira, o maior banco privado português defendia um rácio de 1,8, mais favorável aos seus accionistas.
Escolha do CEO: questão sensível
Outra das questões mais sensíveis durante as negociações relacionou-se com a escolha do CEO, já que o nome de Artur Santos Silva para «chairman» não levantava quaisquer problemas. O BCP impôs como condição para viabilizar a fusão que fosse sua a escolha do presidente executivo do Millennium BPI. Uma exigência que esbarrava na proposta inicial do BPI, que queria entregar o cargo de «chairman» ao BCP, deixando para si a presidência executiva.
Tanto quanto foi possível apurar, o BPI conseguiu convencer os seus principais accionistas (La Caixa e Itaú) a aceitar Pinhal para um primeiro mandato, ficando já garantido, nesta fase, que seria Ulrich a suceder-lhe. O presidente do conselho de administração executivo do BCP terá sido informado desse facto faz hoje uma semana. Um elemento que permitiu alimentar algum optimismo. Filipe Pinhal chegou a dizer aos jornalistas, depois de ter almoçado com Ulrich, na terça-feira, que «a qualquer momento pode haver acordo». As negociações começaram, formalmente, no dia 6 de Novembro, mas a última semana foi determinante para o desfecho do processo.
Na sequência de uma ronda de contactos junto dos seus principais accionistas, os dois bancos puseram as cartas em cima da mesa em relação aos mais variados aspectos de uma eventual fusão, tendo ficado clara a impossibilidade de um entendimento no final da semana passada. Ontem, decorreu a derradeira reunião, que ditou o fim das negociações entre as equipas do BCP e do BPI, lideradas, respectivamente, por Filipe Pinhal e Fernando Ulrich.
Para além da impossibilidade de acordo sobre os termos da fusão, terá também pesado para este fracasso a existência de uma minoria de bloqueio de accionistas do BCP, que se preparava para chumbar o projecto em assembleia-geral. É que, mesmo que os conselhos de administração executivos dos dois bancos chegassem a acordo, a fusão só poderia avançar se fosse aprovada, no caso do BCP, por uma maioria de dois terços do capital presente em AG.
Accionistas contra
Uma barreira que, segundo a generalidade dos analistas, dificilmente seria ultrapassável. Contra a fusão estariam, para além de Joe Berardo, que já manifestou publicamente a sua oposição, a Teixeira Duarte, Manuel Fino, Bernardo Moniz da Maia, a Sonangol e a Caixa Geral de Depósitos. Confrontado com um cenário provável de chumbo em AG, o BCP não tinha grande margem para flexibilizar a sua posição no que respeita ao rácio de troca.